David Harvey e uma leitura crítica da crise

Acabou de sair do forno uma entrevista com David Harvey para o Boletim Campineiro de Geografia (do qual faço parte). Na entrevista, Harvey faz uma leitura crítica da crise financeira e propõe o entendimento das cidades como locus de resistência ao capitalismo. Além disso, discute os impactos dos megaeventos esportivos – Copa, Olimpíadas – e outros grandes projetos em curso no Brasil hoje, o papel da informação no período atual e até o “fazer” dos geógrafos e professores de geografia. Acessem!

O geógrafo David Harvey em entrevista ao BCG

Quem? David Harvey, geógrafo britânico, é um dos intelectuais marxistas mais influentes da atualidade. É professor de antropologia na The City University of New York, nos Estados Unidos, desde 2001. Foi professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford, na Inglaterra. Publicou diversos livros, entre os quais, em português, O Enigma do Capital e as crises do capitalismo (Boitempo, 2011), A produção capitalista do espaço (Annablume, 2005), Espaços de Esperança (Loyola, 2004), O Novo Imperialismo (Loyola, 2004), A Condição Pós-Moderna (Loyola, 1993) e A Justiça Social e a Cidade (Hucitec, 1980).

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O golpe de 1964 e a educação no Brasil

Há 48 anos, os militares e a coalizão de direita no Brasil tomavam o poder. Um período que não devemos nos esquecer jamais, e que teve consequências importantíssimas (e trágicas) para os usos do território brasileiro e para a educação brasileira.

Para que esse tema não passe em branco, em um momento em que há certa pressão de setores da sociedade para criar uma leitura “positiva” desse período (ou seja, uma leitura favorável aos militares), resgatamos dois debates: a influência do regime autoritário no processo educacional brasileiro e a importância da disputa pela memória da ditadura no Brasil.

As democracias latino-americanas vêm buscando penalizar os torturadores,
de forma a evitar que novos períodos como esse ocorram.

O regime autoritário e a educação no Brasil

A filósofa da USP Marilena Chauí, em entrevista recente ao jornal sindical Brasil Atual, destacou três principais impactos da ditadura militar na educação brasileira: a repressão aos educadores, a privatização do ensino e a reforma universitária:

a violência repressiva que se abateu sobre os educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas, mortes, desaparecimentos e exílios. […] Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta”.

a privatização do ensino, que culmina agora no ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. […] Durante a ditadura, houve um processo de privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada, física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada”

Chauí afirma, com base em sua experiência pessoal, que sua geração, na escola pública, “olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco da verdadeira escola”.

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a América Latina toda. […] Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a departamentalização […]

Foi dado ao curso superior uma característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio, que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos. Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários cursos”.

Em sua tese de doutorado em História, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Alexandre Lira demonstra as mudanças da legislação educacional no período da ditadura militar no Brasil, e destaca, também, esse processo de privatização e formação dos grandes oligopólios privados da educação, a inversão de qualidade entre as escolas privadas e públicas e a política pedagógica “tecnicista”, desmantelando um estudo mais humanista e focado no desenvolvimento amplo das crianças e jovens.

A importância da memória e a história do regime na escola

Quem era “terrorista”?

Sabemos que todos os estudos de história (e de outras ciências sociais) representam também, em partes, a visão de mundo daquele que a conta – o qual faz uma seleção de fatos e versões. Nesse sentido, há uma disputa das versões que serão contadas para as gerações seguintes a respeito de um evento como a Ditadura Militar.

Recentemente, uma “onda conservadora” tem avançado na política e na mídia brasileira e trouxe uma tentativa de revisão da análise da repressão na ditadura. Os “anos de chumbo” chegaram a ser batizados de “ditabranda” em editorial da Folha de S. Paulo, num movimento para dizer que não-foi-tão-ruim-assim. Em outro momento, um monumento em construção na USP (comandada pelo conservador Rodas) homenagearia as vítimas da “Revolução” de 1964. A disputa por palavras – revolução/golpe/ditadura, terroristas/militantes, ditadura/ditabranda – é importantíssima nesse processo de conformação a história.

Por essa razão, é importante o funcionamento da Comissão da Verdade, sancionada por Dilma no fim do ano passado, resultando de demandas históricas dos movimentos sociais brasileiros. A proposta da comissão é que ela abra os arquivos do período de torturas e terrorismo de Estado e revele os crimes cometidos pelo governo militar – para isso, pode ser necessário, também, rever a Lei da Anistia.


Era muito desigual o papel de cada grupo no período, por isso os movimentos querem rever a anistia… (de Bier)

Sobre essa disputa pela história do período ditatorial no Brasil, podemos citar o caso do Ceará, onde a mídia tenta reviver Castello Branco (o primeiro dos ditadores) como um “ex-presidente” apenas, que mereceria homenagens regionais. Outro exemplo é o caso da galeria oficial de presidentes, onde constam os ditadores do período militar, dando uma ideia de continuidade. O mesmo ocorre na pressão de movimentos sociais para que sejam retiradas homenagens a torturadores e ditadores do regime militar de ruas, praças, avenidas, rodovias etc, como em Campinas (SP).

“Ditabranda”, por Angeli.

Amanhã (1º de abril), ocorrerá o Cordão da Mentira, uma iniciativa que irá apontar os agentes sociais que se uniram aos militares durante o período militar, alguns dos quais agora retomam o tema buscando uma releitura histórica da ditadura.

Passando por jornais, empresas e lugares simbólicos do apoio civil à ditadura, o Cordão da Mentira irá desfilar pelo centro da cidade de São Paulo para apontar quais foram os atores civis que se uniram aos militares durante os anos de chumbo. Os organizadores –coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas da capital– afirmam ter escolhido o 1º de abril, Dia da Mentira e aniversário de 48 anos do golpe, para discutir a questão “de modo bem-humorado e radical”.

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Por fim, creio ser necessário avançar no entendimento do período da ditadura militar e de seus impactos negativos à educação brasileira. Além disso, enquanto educadores, é vital colocar esse tema com centralidade na escola e também apoiar as disputas, em todas as instâncias da produção e disseminação de conhecimento, por leituras que desvendem e denunciem as violências do regime e seus malefícios à sociedade brasileira.

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O que faremos com a nossa liberdade? (De André Dahmer, do Malvados).

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Veja também:

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O veneno está na mesa [Curta, Professor #7]

A sugestão do dia é o vídeo O veneno está na mesa, dirigido por Sílvio Tendler. Esta obra discute a questão dos agrotóxicos no Brasil e os riscos do uso indiscriminado desses insumos pela agricultura brasileira. Excelente dica aos professores – especialmente nas áreas de Geografia e Biologia – para discutir questões que englobam meio ambiente, saúde e especialmente as tendências da agricultura globalizada.

Acesse o vídeo no Youtube

O veneno está na mesa
Documentário | 2011 | 50 min.
De Sílvio Tendler

A obra faz um alerta sobre o uso de agrotóxicos no Brasil.
Aplicabilidades: Geografia, Biologia, Filosofia, Sociologia.

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Levante sua voz [Curta, Professor #6]

Este excelente vídeo produzido pelo Intervozes – cujos esforços pró-democratização das comunicações no Brasil tenho acompanhado – trata da comunicação no Brasil. Utilizando a mesma linguagem do famoso curta Ilha das Flores para a temática do direito à comunicação no Brasil, retrata a concentração dos meios de comunicação existente no país.

Acessar no Vimeo

Intervozes – Levante sua voz
Documentário, Experimental  | 2010 | 17 min.
De Pedro Ekman

A obra faz um retrato da concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.
Aplicabilidades: Filosofia, Geografia, História, Língua Portuguesa, Sociologia.

Vale a pena levar esse debate à sala de aula!

Se você é professor e já usou este documentário, conte-nos sobre as atividades didáticas envolvidas! E de qualquer modo, professor ou não, deixe seus comentários sobre este curta.

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Site aproxima história acadêmica e escolar

O site Historiando, iniciativa de estudantes de graduação da Unicamp, propõe estabelecer uma ponte entre os conhecimentos acadêmico e escolar em história. Dessa forma, promete contribuir para uma maior visão crítica da história nas escolas. Fica a dica, especialmente para os professores de história e humanidades.

Um dos temas já tratados no site é a independência do Brasil.

Seria bom criar espaços como esse para outras disciplinas e campos do saber. Caso alguém tenha um projeto semelhante, divulgue aqui para avisarmos toda a comunidade do FuturoProfessor!

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Salário digno aos professores do Brasil

Há alguns dias recebemos do leitor Bruno Saboia a indicação de uma campanha que está rolando na internet em defesa de um “Salário digno aos professores do Brasil”. O objetivo é alarmar a sociedade para a situação do magistério no Brasil e do baixo reconhecimento dos professores.

Os que quiserem se juntar à causa, acessem: http://www.causes.com/causes/560356-sal-rio-digno-aos-professores-do-brasil

Aproveitando o tema, seguiremos nos próximos dias com artigos com nossa opinião sobre a questão dos salários dos professores no Brasil.

O que vocês acham? Quais propostas podem ser levadas a frente? O que fazer?

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Parabéns e obrigado, professor!

Dia 15 de outubro é, como todos sabemos, o dia do professor no Brasil. Gostaríamos de aproveitar este momento para agradecer a todos os nossos mais de 5500 assinantes do RSS, em sua maioria professores ou aspirantes a essa bela profissão, leitores fiéis; e a todos os visitantes e parceiros do Futuro Professor, pelo apoio constante a este site.

É com muita felicidade que chegamos até aqui, em nossa quarta comemoração do Dia do Professor, conversando sobre educação e o magistério.

Resgatamos, com o MEC, a origem dessa comemoração:

A celebração começou em 1947, 120 anos depois do Decreto de D. Pedro I que criava o Ensino Elementar no Brasil, em 15 de Outubro de 1827.

Parabéns, professor!

Veja mais:

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Síndrome de Burnout

Trabalhadores que lidam diretamente com o público estão sujeitos a um tipo de esgotamento emocional conhecido como Síndrome de Burnout. De acordo com os especialistas, a Síndrome ataca principalmente médicos, enfermeiros e professores. Segundo a psicóloga Mary Carlotto (ver links abaixo), a manifestação da doença em professores já é maior que a registrada em outros cargos.

A Síndrome é constituída de três dimensões:

Exaustão emocional, caracterizada por uma falta ou carência de energia,entusiasmo e um sentimento de esgotamento de recursos; despersonalização, que se caracteriza portratar os clientes, colegas e a organização como objetos; e diminuição da realização pessoal no trabalho, tendência do trabalhador a se auto-avaliar deforma negativa. As pessoas sentem-se infelizes consigo próprias e insatisfeitas com seudesenvolvimento profissional. (Carlotto, 2002 – ver links abaixo)

O tratamento psicológico é variável, uma vez que cada caso/pessoa necessita de atendimento especial. Além disso, o que se sabe é que a doença nem sempre é facilmente identificada pelo portador. Os efeitos no trabalho do professor são problemas no planejamento de aula, esgotamento emocional, desatenção etc., podendo levar ao afastamento.

Conheça mais sobre a Síndrome nos links abaixo:

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Modelo de “reajuste por mérito” está errado, diz criadora

Não sei se alguém teve a oportunidade de conferir no Estadão a entrevista com Diane Ravitch, uma das principais criadoras e defensoras do modelo de metas, testes padronizados e responsabilização do professor pelo desempenho do aluno nos EUA (chamado aqui de “reajuste por mérito”).

Hoje ela percebe que o sistema está errado e é danoso para a educação!

Principais críticas

Vejam alguns trechos da entrevista em que Diane relata as principais críticas:

“O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo”

“[Avaliações] são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações”.

“Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação”

Ela destaca a questão das fraudes, muito comuns nessa lógica de responsabilização do professor ligada ao desempenho em avaliações. Essas ações foram tomadas sob influência da ideologia empresarial na educação, focando resultados como se o processo educativo fosse um processo industrial.

É bom ver uma autocrítica nesse sentido. Responder bem a testes padronizados não significa, definitivamente, uma boa educação.

Atenção: o modelo está em uso no Brasil

Essas ideias que partiram principalmente dos EUA chegaram à educação brasileira, em especial em governos do PSDB. Entre esses governos, destacam-se as últimas gestões do Estado de São Paulo. Atualmente, na figura de José Serra – agora candidato a presidente – o projeto se coloca como modelo para o Brasil todo.

Outros candidatos e partidos estão seguindo esse discurso – há, inclusive, uma rigidez maior dos testes e metas em nível federal – embora no Estado de São Paulo essa prática tenha chegado ao seu limite, com o reajuste por mérito.

Esperamos que essa reflexão de Diane Ravitch sirva para alertar os futuros professores, gestores de escola e políticos de que esse modelo não nos serve. Ele ajuda a controlar, uniformizar, padronizar e, sobretudo, ajuda a inserir cada vez mais a lógica da competitividade na escola, mas é danoso à formação ampla dos estudantes e à construção de uma educação que faça sentido.

Veja também:

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Links: Biblioteca Digital da Unicamp

Assim como o link da semana passada, a Biblioteca Digital da Unicamp disponibiliza diversas teses e dissertações, também sem custo algum.

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