Capturar a atenção dos jovens para obras de autores clássicos sempre exigiu esforço pedagógico. Diante do fluxo contínuo de telas e notificações, trabalhar o incentivo à leitura em adolescentes virou um compromisso que pede inovação constante.

Muitas instituições de ensino estão mudando a dinâmica tradicional das aulas. Em vez de impor títulos, elas apostam em decisões compartilhadas, clubes do livro e dinâmicas nas quais os próprios alunos indicam obras e mediam debates.

Competição direta com as telas

Professores percebem no dia a dia como a dispersão afeta o hábito leitor.

Anaídes Silva, professora de português da Escola Estadual Paulo Octávio Azevedo, na zona sul da capital paulista, diz que mudou a abordagem em sala de aula para captar a atenção dos adolescentes, cada vez mais dispersos.

“Antigamente, a gente mandava um, dois capítulos para casa e eles liam. Hoje tem muito mais coisa competindo com a atenção deles”, afirma. “Eu costumo dizer que, antes de ler, tem que apresentar, contextualizar, mostrar o cheiro do livro.”

Redes sociais não precisam ser tratadas como barreiras. Em 2025, o sucesso de um vídeo gravado por uma criadora de conteúdo norte-americana sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas” virou ponto de partida para a docente trabalhar o clássico em sala.

“Os alunos vieram empolgados me mostrar [o vídeo], e eu fiz uma leitura dirigida com eles.”

Redefinindo a relação com o tempo

O comportamento dos estudantes reflete a velocidade em que consomem conteúdos na internet.

“Não é que os estudantes não leiam; eles podem não ter o hábito de pegar um livro, sentar e ir do começo ao fim”, diz a professora de português Andrea Maggi, que leciona para turmas de ensino fundamental e médio na rede particular de Belo Horizonte (MG).

“Isso tem a ver com a mudança da sensação de tempo. O volume de informação que chega para gente hoje é em grande quantidade e de forma muito acelerada”, explica.

Para contornar o problema, a educadora conecta a literatura antiga com temas da atualidade.

“A gente debate: o que essa leitura traz? Mesmo tendo sido escrita há bastante tempo, o que ainda reflete nos dias de hoje? E agora, na era digital, como que seria esse personagem?”

O protagonismo dos estudantes no aprendizado

A troca de experiências entre faixas etárias diferentes atua como um estímulo natural. No projeto Mediadores da Leitura, da Emef Ruy Barbosa, escola municipal da zona norte, alunos do 6º ao 9º ano apresentam livros e contam histórias a estudantes mais novos em fase de alfabetização.

“Eu acho que esse projeto faz as crianças lerem mais porque elas se inspiram nos mais velhos. Acaba sendo bom até para mim. Depois que eu comecei a participar, passei a ler muito mais”, conta Guilheme, 13, aluno do 8º ano.

“Faz a gente se soltar mais, perder aquela vergonha e não ficar gaguejando enquanto lê”, complementa Ana Claudia, 13.

Os próprios estudantes do ensino fundamental 2 definem os títulos trabalhados com as crianças.

“Ter essa autonomia, esse planejamento participativo, é importante para que eles tenham esse contato com o livro”, explica Vanusa Rosa Ferreira, professora de português e coordenadora do projeto.

A instituição também conta com um clube de leitura concorrido a partir do 4º ano do ensino fundamental.

“Eles buscam esse contato com o livro e com o outro. E também buscam fugir desse mundo tecnológico em que estão imersos, querem o contato com o livro físico.”

Métodos que ampliam horizontes literários

Práticas semelhantes mostram bons resultados na rede privada. No Vera Cruz, colégio particular da zona oeste paulista, o círculo de leitura ocorre até duas vezes por trimestre e é obrigatório para turmas do 6º ao 9º ano.

“Nós temos que ler, fazer fichamento e apresentar aquele livro para a turma”, explica Mariana, 12. Para ela, o círculo é uma forma de entrar em contato com títulos que, em geral, ela não iria se interessar. “Se eu só ficasse nos meus livros de conforto, acho que tem coisas que eu jamais estaria pensando agora.”

A proposta tira o foco central da figura do professor e traz os alunos para o centro do debate.

“Abre espaço, inclusive, para falar sobre os fracassos na leitura, discutir por que não gostou ou por que desistiu de um livro, validando a realidade de qualquer leitor”, segundo Clara Remkus, coordenadora de língua portuguesa dos anos finais do ensino fundamental do Vera Cruz.

Espaços culturais como portas de entrada

Visitar locais voltados à cultura ajuda a criar identificação com os livros. A Biblioteca Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, recebe em média 11 turmas escolares por mês.

O local reúne acervo de HQs, mangás, jogos, computadores e atividades interativas.

“Tentamos criar um espaço que seja uma porta de entrada para crianças e adolescentes que não gostam de ler desenvolverem o hábito de leitura”, diz Wellington Custódio, coordenador de atendimento e mediação da Biblioteca Parque Villa-Lobos.

O uso de videogames e computadores conta com limite de tempo para incentivar a exploração de outros cantos do espaço. A estrutura surpreende até quem já tem o costume de ler.

“Eu não imaginava que tinha videogames, sala de jogos, coisas assim. Nem um auditório. Pensava que era só uma biblioteca”, conta Wagner Alan, 14, aluno do 8º ano no CEU Emef Jaguaré, fã de narrativas sobre guerras.

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