A presença da literatura afro-brasileira e de obras focadas em direitos humanos e questões étnico-raciais cresceu nas redes públicas de ensino.
Os dados vêm de um mapeamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), solicitado pela Folha, referente aos pedidos do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD).
O relatório analisa os 40 títulos literários mais requisitados por instituições públicas nos anos de 2020 e 2024. A contagem aborda turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental.
Crescimento temático nos anos finais
Especialistas destacam que a faixa entre 11 e 14 anos é fundamental para consolidar o hábito da leitura, período em que o contato com livros costuma diminuir.
Entre as obras para 6º e 7º anos, a presença de temas sociais e raciais subiu de 3 para 5 livros entre 2020 e 2024.
No segmento do 8º e 9º anos, os títulos com essa abordagem subiram de 4 para 6 no mesmo período.
Motivos para a mudança
A professora Telma Borges, da Faculdade de Educação da UFMG, aponta que o debate público influenciou a escolha por autores e temas contemporâneos.
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“Há uma percepção de que a habilidade de lidar com o mundo não está só no plano da ficção. Há uma bibliodiversidade importante que inclui também a cultura dos clássicos indígenas, dos clássicos escritos por negros, dos clássicos escritos por minorias”, afirma.
Títulos em destaque no PNLD
Para as turmas de 6º e 7º anos, figuram entre os mais solicitados autores como Daniel Munduruku, Malala Yousafzai, Silvana Salerno, Lia Minápoty e Yaguarê Yamã.
Já nos anos finais (8º e 9º), ganham relevância obras de Geni Guimarães, Jarid Arraes, Júlio Emílio Braz, Ieda Oliveira e Daniel Munduruku.
Clássicos tradicionais continuam nas solicitações, mas em ritmo diferente. A pesquisadora Maria Amélia Dalvi, da Ufes, esclarece o contexto:
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“Às vezes, essas obras clássicas tradicionais já compõem o acervo das escolas ou o professor pode trabalhar com a versão digital porque estão em domínio público. Então, as escolas privilegiam solicitar obras novas que ainda não têm no acervo.”
O cenário nas escolas privadas
Um levantamento com 13 colégios particulares paulistanos para o ano letivo de 2026 analisou 43 obras adotadas por ao menos duas instituições.
Mais da metade da lista das escolas privadas é formada por clássicos universais e brasileiros.
A preferência por nomes consagrados mostra maior apego à tradição no setor privado quando comparado à rede pública.
Mudanças no acervo: de Monteiro Lobato às emoções
Adaptações de Monteiro Lobato, que estavam presentes na lista de 2020, deixaram de figurar entre os mais pedidos em 2024.
A ausência do autor reflete debates sobre elementos de sua obra e possíveis estratégias editoriais. Sobre a presença de Monteiro Lobato, Telma Borges declara:
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“Talvez as editoras tenham optado por não enviar esses livros exatamente para que não perdessem a oportunidade de ter um livro aprovado pelo PNLD, porque isso significa receita para elas.”
Sobre a necessidade de mediação para a leitura do autor, a especialista Eliana Yunes pondera:
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“Lobato tem que ser hoje apresentado por uma mediação muito interessante, sobretudo na primeira fase. No segundo grau, as questões lobatianas já passam por uma esfera dos livros dele adultos, em que se pode efetivamente discutir com um espírito crítico muito mais aguçado”, diz a especialista literária Eliana Yunes.
Avanço da pauta socioemocional
Temas como bullying, ansiedade e inteligência emocional assumiram os primeiros lugares entre as obras mais pedidas para o 6º e 7º anos.
Esse movimento acompanha as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê o desenvolvimento de empatia e autoconhecimento.
Entretanto, o uso instrumental de histórias levanta discussões sobre a preservação da qualidade textual, conforme alerta Eliana Yunes:
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“Todo mundo aproveita a literatura, que é uma forma de narrar uma determinada experiência, para outros fins. Mas a qualidade disso muitas vezes fica a desejar, porque a coisa fica efetivamente uma receita, uma crítica, uma coisa muito dirigida”, afirma Yunes.