As faculdades de medicina reprovadas no primeiro Enamed buscam estratégias urgentes para elevar o desempenho dos estudantes e evitar novas sanções do Ministério da Educação.
Entre as ações adotadas estão a alteração de matrizes pedagógicas, o aumento da exigência em avaliações e até a contratação de cursos preparatórios para os formandos.
A segunda edição do exame ocorre neste domingo, sendo voltada aos alunos concluintes da graduação.
O impacto das notas baixas e as sanções do governo
A primeira divulgação dos resultados revelou que 107 dos 305 cursos avaliados obtiveram conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios.
A maioria das instituições com desempenho ruim pertence à rede privada de ensino.
Em resposta, o Ministério da Educação aplicou punições variadas, que incluem desde a supervisão rigorosa até o bloqueio de novas vagas e matrículas.
A urgência para reverter o quadro gerou uma corrida nas instituições durante o primeiro semestre.
Mudanças pedagógicas e a reação dos estudantes
Para tentar contornar a situação, algumas faculdades alteraram as regras de aprovação no meio do ano letivo.
A Uniderp, em Campo Grande, elevou a média de aprovação de 6 para 7 pontos, além de substituir horas de atendimento a pacientes por atividades laboratoriais e cursinhos.
A medida levou os estudantes a recorrerem à Justiça contra as mudanças repentinas.
Em decisão liminar, o magistrado determinou o retorno aos critérios antigos, destacando a exigência legal de divulgar regras com antecedência.
A Uniderp manifestou-se sobre o caso em nota oficial:
“modelo de avaliação contínua e integrada, que considera conhecimentos teóricos, habilidades clínicas, profissionalismo e desempenho prático, mantendo a média institucional 7,0 para aprovação e os demais requisitos acadêmicos do curso”.
A instituição complementou detalhando os investimentos realizados:
“acompanhamento da aprendizagem, tutoria, capacitação docente e recursos educacionais complementares”
A faculdade informou ainda que a decisão judicial “tem eficácia por prazo determinado e não afastou definitivamente as iniciativas adotadas pela instituição”.
Protestos e disputas judiciais em outras instituições
Situação semelhante ocorreu na Unicid, em São Paulo, onde a elevação da nota mínima gerou protestos da comunidade acadêmica.
Após os questionamentos dos alunos por mais aulas práticas e professores, a mudança foi adiada para o próximo ano.
Na Unisa, 39 alunos reprovados acionaram a Justiça aleando retaliação após protestarem por melhorias na estrutura.
A universidade sofreu cortes de vagas e bloqueio do Fies por registrar menos da metade dos alunos com proficiência adequada.
Críticas de especialistas à preparação focada no exame
Especialistas alertam que o foco excessivo em provas pode não se traduzir em ganho na qualidade da formação médica.
O especialista em avaliação Alexandre Nicolini aponta que os prejuízos financeiros com a perda de turmas motivam soluções apressadas.
Segundo Nicolini, recorrer a treinamentos específicos é uma “medida paliativa, que prepara o aluno para o conteúdo, mas não para ter competência médica”.
As críticas também se estendem à substituição do estágio prático hospitalar por aulas teóricas direcionadas a exames.
Antônio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina, analisa a perda de vivência prática:
“Elas estão trocando a parte mais importante da formação médica no 5º e 6º ano, que é quando deveriam começar efetivamente a atender pacientes, por atividades com robôs e máquinas. E, mais grave, estão tirando os alunos do internato [estágios obrigatórios em hospitais e ambulatórios] para assistir aulas de cursinho.”
Gonçalves conclui sobre o impacto dessa substituição:
“Invariavelmente, a nota do Enamed pode até subir, mas a qualidade da formação médica, não”
Por outro lado, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) defende o aprimoramento dos projetos pedagógicos, ressaltando em nota oficial que:
“E, a partir delas, aperfeiçoem seus projetos pedagógicos, seus processos de avaliação, as atividades práticas, a qualidade do corpo docente e o acompanhamento da aprendizagem.”
A entidade destacou ainda a finalidade principal dessas adequações:
“O objetivo não pode ser simplesmente elevar o desempenho no exame, mas garantir que o estudante desenvolva, ao longo do curso, as competências necessárias para o exercício responsável da medicina.”