Uma cena simples e rotineira desperta reflexões profundas sobre a existência humana. Presente na lista de leituras obrigatórias da Fuvest 2027, o romance A Paixão Segundo G.H. aposta em um fluxo de consciência marcante que aborda sentimentos e sensações difíceis de explicar em palavras.
“Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa” – trecho do livro “A Paixão Segundo G.H.”
A trajetória da autora
Origens e chegada ao Brasil
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, com o nome de Haia Lispector. A data exata de seu nascimento gerou dúvidas por causa de rasuras nos documentos. “Segundo a biógrafa Nádia Battella Gotlib, pelo conjunto de documentos, ela nasceu em 1920”, diz Luiz Lopes, professor de língua portuguesa, literatura e cultura do Cefet-MG.
Diante do cenário de perseguição aos judeus na Europa, a família veio para o Brasil. Aqui, Haia adotou o nome Clarice ao se naturalizar. “Quando pensamos nas origens, percebemos que o pertencimento dela é de difícil definição”, observa o professor.
Formação, escrita e carreira
Ela cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ambiente acadêmico, conheceu o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem esteve casada entre 1943 e 1959 e teve dois filhos. Essa união a levou a morar em países como Itália, Suíça e Estados Unidos.
Sua estreia literária em jornais ocorreu em 1940, na Revista Pan. Anos depois, publicou o romance de estreia “Perto do Coração Selvagem”, recebendo o prêmio Graça Aranha e grande reconhecimento.
Clarice também atuou no jornalismo profissional. Escreveu a coluna “Correio Feminino” no Correio da Manhã e, mais tarde, a seção “Só para Mulheres” no Diário da Noite.
As referências da autora misturavam elementos eruditos e populares. “É importante ressaltar que se trata de uma mulher e, justamente pela barreira que isso significava em termos da valorização patriarcal da sociedade brasileira, ela foi imediatamente reconhecida”, ressalta Eduardo Gross, professor nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e Ciência da Religião da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
Pelo conjunto da sua produção, recebeu uma prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal em 1976. Falaceu no Rio de Janeiro em 1977, vítima de câncer de ovário, aos 56 anos.
O que compreender sobre a obra
Ritmo e sensibilidade na leitura
Ler o texto exige desacelerar. “É importante tomar cuidado com um juízo muito rápido. A primeira coisa é se desarmar. A nossa vida está cada vez mais corrida, mais atropelada, e um texto como o de Clarice é o contrário disso”, afirma Gross.
O estilo constrói imagens fáceis de associar a alusões ou sequências de sonhos.
Linguagem e estrutura da narrativa
Embora a trama principal possa ser contada de forma muito breve, as especulações filosóficas preenchem cada página. O uso constante de paradoxos cria momentos de forte tensão narrativa.
“O objetivo é, pela própria linguagem, gerar choque. Clarice quer nos apontar que existe verdade para além daquilo que cabe dentro da nossa forma de expressão”, explica o professor da UFJF.
Em determinado trecho, a personagem olha a paisagem do Rio de Janeiro e visualiza a Palestina. Essa mistura entre memória e imaginação expande o acontecimento individual para algo universal.
Aspectos sociais e de gênero
O próprio título faz uma paródia dos evangelhos, trazendo o protagonismo para o universo feminino. A trama envolve G.H., uma artista plástica de classe alta, a doméstica negra Janair e um inseto no quarto.
A saída de Janair abre espaço para desestabilizar a rotina e as certezas de G.H., expor as estruturas sociais e apontar limites da rotina. “A crítica social da autora não é direta, mas aparece ligada à experiência interior da personagem”, diz Gross.
O corpo, o sagrado e o cotidiano
O encontro fortuito com a barata tira a protagonista da zona de conforto. Esse choque gera uma transformação interior complexa, que mistura incômodo e libertação.
A narrativa propõe que a razão não é o único meio de compreender o mundo. “Ler a obra é ‘entrar em contato com’. Tem muito da emoção. Ela toca em um lugar que a palavra não dá conta. Clarice é escritora do indizível”, comenta Lopes.
A figura da barata aproxima o sagrado da vida real e diária. “A narradora diz que o divino é o real. Ela é uma escritora do instante, não tem uma redenção. É agora”, diz.
O livro convida a refletir sobre o respeito e a relação com o outro. “Clarice desconfiava muito da primazia do humano em relação a outras formas de vida”, ressalta o professor.