Educação

Uso de IA nos estudos: pesquisa revela que estudantes adotam tecnologia sem apoio das escolas

Celebrado nesta terça-feira (11), o Dia do Estudante encontra uma geração que já incorporou a inteligência artificial à rotina diária de aprendizado. Um levantamento inédito feito pela empresa norueguesa Opera revela que essa transformação digital ocorre, na maioria das vezes, sem nenhum tipo de direcionamento por parte das instituições de ensino. Ao mesmo tempo, os próprios alunos já percebem que os resultados da tecnologia dependem diretamente da forma como ela é aplicada.

A pesquisa contou com a participação de mais de 2.400 estudantes brasileiros entre 17 de abril e 5 de junho, englobando desde jovens com menos de 14 anos até adultos com 35 anos ou mais. Os dados mostram que 71% dos entrevistados consideram que a IA auxilia na compreensão das matérias ou que seu impacto varia conforme o uso.

Falta de orientação nas salas de aula

Apesar do amplo acesso, a orientação oficial ainda é uma exceção nas salas de aula. Apenas 5% dos participantes afirmaram ter recebido instruções formais de suas escolas ou universidades sobre como utilizar essas ferramentas. Em contrapartida, 40% declararam que nunca tiveram qualquer tipo de direcionamento.

No cotidiano escolar, 17% dos alunos admitem recorrer com frequência à tecnologia para elaborar a maior parte das tarefas. Já 31% utilizam as ferramentas apenas como ponto de partida para pesquisas, fazendo edições e adaptações antes da entrega final. Outros 22% preferem realizar os trabalhos sem qualquer auxílio tecnológico.

Quanto às regras institucionais, somente 20% relatam que suas escolas possuem políticas claras para o uso dessas ferramentas. Enquanto 32% contam apenas com orientações informais fornecidas por professores, 9% estudam em locais onde a tecnologia é totalmente proibida.

A busca por respostas mais confiáveis

Os estudantes demonstram preocupação com a qualidade do conteúdo gerado, buscando entender o raciocínio por trás das respostas em vez de usá-las apenas como um atalho rápido. Para os especialistas, essa postura indica que o grande desafio atual não é proibir a ferramenta, mas ensinar o pensamento crítico.

Melhorar a confiabilidade das informações é a prioridade indicada por 52% dos pesquisados. Essa exigência é ainda mais acentuada no grupo de 15 a 17 anos: 60% pedem dados mais precisos e verificados, e 55% gostariam de explicações mais detalhadas e estruturadas passo a passo.

A diretora regional da Opera no Brasil destaca como a tecnologia pode ser direcionada para ampliar a autonomia do aluno no dia a dia:

“A inteligência artificial pode apoiar o processo de aprendizagem, mas isso depende de como ela é usada. Quando bem orientada, ela pode ajudar o estudante a desenvolver autonomia, revisar conteúdos e identificar lacunas de compreensão. O ponto central não é substituir o esforço do aluno, mas potencializar o aprendizado”, afirma Juliana Psaros, diretora regional da Opera no Brasil.

Juliana Psaros acrescenta que os dados reforçam que os próprios jovens percebem essa necessidade e cobram um direcionamento mais claro das instituições de ensino. Na visão da diretora, existe uma grande oportunidade para educadores incorporarem essas ferramentas ao aprendizado, incentivando revisões e aprofundamentos em vez do simples envio de respostas prontas.

O papel do pensamento crítico no aprendizado

A diferença entre um uso enriquecedor e um hábito prejudicial está na maneira como o estudante interage com a ferramenta. Recorrer à tecnologia para tirar dúvidas após ler um texto, por exemplo, enriquece a reflexão. O problema surge quando o aluno delega à máquina tarefas vitais para o desenvolvimento da leitura e da escrita.

A doutora em educação Mônica Garbin ressalta a importância de desenvolver a capacidade analítica dos alunos desde cedo:

“Com isso, o estudante não consegue desenvolver aspectos que se repetem, um uso ético dessas ferramentas, um uso crítico dessas ferramentas. Mas, ao mesmo tempo, os professores hoje em dia, nos cursos de formação de professores, pouco têm conteúdos que se remetem à ideia das tecnologias na educação.”

Por sua vez, o especialista em inovações educacionais Ademar Celedônio alerta que textos gerados por algoritmos podem transmitir muita segurança, mesmo quando trazem conceitos incorretos:

“Mais importante do que descobrir se um trabalho foi produzido com IA é garantir que o estudante demonstre que entendeu o conteúdo e consiga explicar o raciocínio por trás das respostas”, afirma Celedônio.

Segundo Celedônio, essa mudança de paradigma deve alterar a forma como as escolas avaliam os estudantes, deixando de focar apenas no resultado final para valorizar o raciocínio, a argumentação e a compreensão.

Embora algumas instituições ainda prefiram restringir o uso, especialistas concordam que o caminho mais promissor é preparar alunos e professores para conviver com uma inovação que já se consolidou na rotina escolar.

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