Mais da metade das escolas públicas de Salvador teve a rotina afetada por tiroteios ocorridos em um raio de até um quilômetro durante o ano letivo. O diagnóstico inédito foi elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado e revela o tamanho do impacto da insegurança na rotina de estudantes e professores.
A abrangência do problema impressiona quando se analisa o conjunto da rede de ensino. Das 600 escolas municipais e estaduais da capital baiana, apenas 12 não tiveram registros de eventos armados nas proximidades. Outras 249 unidades vivenciaram menos de dez dias com episódios desse tipo no entorno.
No entanto, a maior parte das instituições enfrentou uma realidade bem mais severa. Ao todo, 339 unidades de ensino lidaram com mais de dez dias sob o barulho de disparos. Entre elas, 133 acumularam entre 10 e 20 dias de conflitos, 180 somaram de 21 a 40 dias e 23 superaram a marca de 40 dias com ocorrências do gênero.
O caso mais grave foi registrado em uma escola onde a violência esteve presente em 55 dias do ano. Essa marca corresponde a 27,5% dos 200 dias de aulas previstos pela legislação nacional, comprometendo quase um terço do ano escolar das crianças daquela comunidade.
Mapeamento detalhado e a origem dos confrontos
O levantamento utilizou dados georreferenciados para cruzar a localização das escolas com os locais de tiroteios em Salvador. Entre 2023 e 2025, foram contabilizadas 3.748 ocorrências violentas na capital, o que representa uma média diária de 3,4 episódios.
Para montar essa base de dados, a instituição combina informações enviadas de forma colaborativa por um aplicativo móvel, checadas no momento em que ocorrem, com indicadores públicos sobre segurança urbana.
A rotina das salas de aula fica exposta porque 59% dos episódios acontecem em dias de aula. Além disso, 40% das trocas de tiros foram registradas em horários diurnos, coincidindo com momentos de deslocamento de alunos ou com o período de aulas.
A análise sobre a origem dessas ocorrências mostra uma participação significativa das forças de segurança públicas. O estudo indica que 37,4% das situações em dias letivos foram decorrentes de intervenções policiais promovidas na região.
Outros motivadores também aparecem de forma expressiva nos números coletados. Cerca de 32% dos episódios estavam relacionados a homicídios ou tentativas de assassinato, 11,1% envolveram roubos e 10,7% decorreram de disputas entre facções criminosas.
Desigualdade territorial e retrocesso no aprendizado
A pesquisa expõe que a rotina de disparos e operações não atinge a cidade de forma homogênea. As instituições de ensino localizadas em bairros de menor renda e com maior densidade de população negra são as mais prejudicadas pelos episódios de violência.
Em um grupo de seis escolas identificadas em situação crítica persistente, a renda média dos moradores da vizinhança oscilava entre R$ 594,10 e R$ 702,59. A presença de moradores não brancos nesses locais variava de 87,4% a 91,2%.
A exposição contínua ao perigo compromete a saúde mental de estudantes e educadores, gerando rupturas frequentes no processo pedagógico. Pesquisas internacionais indicam que o medo constante dentro do ambiente de aprendizagem causa queda no rendimento e contribui para a evasão escolar.
Diante do cenário, o Conselho Nacional de Educação estabeleceu diretrizes para proteger o cumprimento das horas de aula. A regulamentação define que a responsabilidade por suspender as atividades ou reorganizar a grade não deve recair individualmente sobre os gestores de cada unidade, mas sim sobre as redes de ensino.
O que dizem os especialistas e autoridades
“Existe um problema disseminado da violência armada em Salvador, mas os dados nos mostram que essa situação impacta mais algumas escolas e territórios. Há um padrão geográfico que mostra a necessidade de um olhar especial para algumas escolas que estão sendo mais afetadas, que precisam de apoio” — Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado.
“Mais de um terço dos tiroteios que afetaram as escolas no ano passado foi em decorrência de ação policial, que vem de uma decisão do Estado. Não queremos culpar ninguém, mas o Estado precisa garantir a segurança da população sem colocar a educação em risco. Ou seja, precisa ter protocolos e ações planejadas para atender melhor tanto os objetivos educacionais como os de segurança pública” — Maria Isabel Couto
“É urgente pensar nos impactos dessas ocorrências na saúde, bem-estar e aprendizado das crianças e adolescentes. É preciso dar apoio para essas escolas mais afetadas, ajudá-las a ter um protocolo de segurança para essas situações. Os diretores dessas escolas não podem ser os únicos responsáveis por pensar em como proteger os alunos. O poder público precisa dar essa resposta.” — Maria Isabel Couto
Notas oficiais do Governo da Bahia
“Os protocolos de reforço do policiamento são acionados em áreas conflagradas, garantindo o funcionamento das escolas e do comércio, além da circulação do transporte público.” — Gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT)
“onde, além de aprendizado e atividades esportivas e culturais, é garantida a segurança alimentar e nutricional aos estudantes.” — Secretaria de Educação da Bahia
“Além disso, há uma parceria com a Ronda Escolar, a Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública” — Secretaria de Educação da Bahia