A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) promoveu na última semana de novembro um encontro com ex-estudantes cotistas para discutir a nova fase de sua política de ações afirmativas, que passará por uma segunda revisão legislativa em 2028. A Uerj foi a primeira instituição no país a adotar cotas sociais e raciais em seu vestibular, em 2003.
Os relatos dos egressos presentes reforçaram o impacto transformador da medida.
Mobilidade social e oportunidades
Henrique Silveira, ex-estudante cotista de Geografia, ingressou na Uerj em 2006. Nascido em Imbariê, um distrito de baixa renda na Baixada Fluminense, ele hoje é subsecretário de Tecnologias Sociais da prefeitura do Rio. Para ele, a cota significou uma profunda mobilidade social.
“Eu sou esse sujeito pobre, da baixada, como tantos outros aqui, que sempre trabalhou ajudando o pai em tudo, mas com a clareza da necessidade de estudar,” disse Henrique. Ele relembrou que, quando criança, trabalhava com seu pai fazendo entregas de material de construção em uma carroça.
“Eu sou o tipo de transformação, de mobilidade social, que essa política é capaz de dar, de tirar um cara de trás de uma carroça, colocar na universidade e oferecer-lhe uma vida melhor,” contou, destacando a importância da oportunidade para sua trajetória.
A luta e a superação
A dentista Maiara Roque, que ingressou pelo sistema de cotas em 2013, dez anos após a primeira turma, lembrou os desafios iniciais. Na época, os auxílios estudantis eram mais restritos e a política de cotas ainda enfrentava questionamentos sobre a capacidade dos alunos. Pesquisas posteriores, no entanto, demonstraram que não havia diferença de rendimento acadêmico entre estudantes cotistas e não cotistas.
“Depois que você entra, você adquire um sentimento de pertencimento, que você merece esse lugar,” afirmou Maiara. Ela conseguiu cursar Odontologia, um curso de dedicação integral, com o apoio da mãe, cuidadora de idosos. A experiência na Uerj transformou sua visão de mundo e atuação profissional. Depois de trabalhar no sistema prisional e na rede básica de saúde, ela montou um consultório no bairro onde cresceu, na Penha.
“Eu acho que, de certa forma, estou devolvendo para minha comunidade essa oportunidade,” disse Maiara, sobre seu trabalho. “E a gente encontra pessoas muito à vontade com uma doutora que é negra, que é do bairro e que não faz julgamentos.”
Impacto estatístico e o critério socioeconômico
As ações afirmativas têm contribuído para diminuir a disparidade na conclusão do ensino superior entre grupos raciais no Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, em 2022, 11,7% dos estudantes pretos e 12,3% dos pardos tinham nível superior. Embora essas taxas tenham crescido, elas representam menos da metade da taxa observada entre pessoas brancas, que era de 25,8%.
Na Uerj, a política de cotas raciais cruza a autodeclaração com critérios socioeconômicos para garantir o acesso de pessoas de camadas menos favorecidas. Segundo a universidade, 32 mil estudantes já ingressaram por esse modelo.
No entanto, os egressos debatem a necessidade de rever o recorte socioeconômico. Atualmente, o corte de renda bruta familiar por pessoa é de R$ 2.277, um valor considerado muito baixo, especialmente para o ingresso em cursos de pós-graduação.
David Gomes, historiador que ingressou em 2011 por cotas após frequentar um pré-vestibular popular, defende a abolição do critério socioeconômico para a pós-graduação. Ele citou que profissionais formados em áreas como Direito e Medicina, e até mesmo professores, frequentemente ultrapassam esse limite de renda.
“A grande questão hoje, na pós-graduação, é o recorte de renda. Temos que enfrentar essa discussão, porque a pessoa, por exemplo, que se forma, em direito, medicina, até uma professora, na verdade, ela não se encaixa nesse recorte, é baixo,” explicou.
O futuro da política de ações afirmativas
A política de ações afirmativas da Uerj é regida pela Lei 8.121, de 2018. Ela reserva 20% das vagas para cotas raciais (pretos, pardos, indígenas e quilombolas) e outros 20% para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio na rede pública. A lei atual também permite a acumulação da bolsa-auxílio com outros benefícios, como a bolsa de iniciação científica, o que os egressos avaliam como fundamental para as condições de permanência na universidade.
David, que cresceu no Complexo da Penha, enfatizou que a oportunidade universitária significou uma perspectiva de vida diferente para ele, em contraste com o destino de algumas pessoas que cresceram em sua região.
Como primeiro passo para a próxima revisão legal, os egressos defendem a coleta e difusão de dados sobre o impacto da política. Henrique Silveira reforçou a necessidade de reduzir a burocracia na comprovação do perfil socioeconômico e de apoiar os pré-vestibulares populares.
Ele relembrou sua própria jornada de conscientização: “Fiz vestibular em 2005, era um daqueles ‘não quero cota’, mas ali eu tomei consciência que era meu direito,” disse, ressaltando o papel dos pré-vestibulares na clareza de sua condição de negro.
O mapeamento da trajetória profissional dos ex-alunos é o foco atual da Uerj para embasar a próxima fase da medida, garantindo que o legado e a importância das cotas continuem a ser reconhecidos e aprimorados.